terça-feira, 10 de agosto de 2010

em homenagem sentida ao menino vítima de incêndio

Quero morrer por ti
pela vida que não tiveste
pela promessa sagrada
que não se cumpriu
quero morrer por ti
porque me apetece morrer por amor
e não confessá-lo a ninguém
mas anunciá-lo no meu querido céu ateu.

(em boa verdade devia guardar estes sentimentos para mim - mas poesia obriga)

Esta coisa séria da escrita e da vida que não se leva a sério como convém. Acabei de saber duma criança consumida pelo fogo num palheiro e pedi responsabilidades a esse deuzinho tão bondoso e interveniente: informaram-me, em nota oficiosa do arcebispado de braga, onde me encontro de férias precárias, que a negligência é humana e deus não o é pela sua própria natureza - além de que tem imunidade diplomática e estatuto internacional de inimputabilidade. Assim, recolhi aos meus aposentos, no mais pesaroso silêncio dos deuses. Caíam cinzas no écran do meu portátil, lavravam incêndios de dor por toda a parte e dei por mim numa prece breve de revolta, que só os ateus sabem rezar pelos outros.

terça-feira, 20 de julho de 2010

DESAGOSTO

trago um desgosto em mim desde menino
um não sei quê de angústia
talvez porque foi quase sempre meu destino
morar nas amuradas do mar

brinquei na areia
saltei das rochas
fui enrolado pelas ondas
e quantas vezes dei á costa na ilha dos tesouros

hoje sei
quando abro esse baú da infância
quantos tesouros lá deixei:
as gritarias, os pontapés na bola, os bichos-da-seda

hoje sei
aquela amargura que trago
só pode ser
da recusa de crescer
e persistir brincar ainda na praia vazia da minha meninice.






só quem viveu muito
pôde morrer tantas vezes e sobreviver
fuzilado pelos olhos de quem nos amou e partiu
e só volta de vez em quando no prodigío breve
dos lençóis de neblina dos sonhos

há sempre alguém que nos comove a cada esquina da vida
e dessa beleza sentida
só por ela valeu bem a pena nascer da dor
em amor convertida

(sugestionado pelas fotos e versos do T. da Luz)

sábado, 17 de julho de 2010

preia-mar

no bulício duma praia maré-cheia de verão
onde ondas de meninos se atiram á água
e as meninas tecem caracóis e intrigas
há um menino de risca ao lado
que não sorri
e risca riscos ariscos à solidão
nuns gritos estridentes de gaivota sem asas

(e o meu filho joão não me deixa terminar o poema)
PATHEOS

serás poeta sem querer
se um dia te deixares estar sem esperares nada nem ninguém
no desejo insensato de esquecer o mundo
tecendo rendas de bilros de silêncios
bordando novas palavras para sentimentos ocultos
num pateo sombrio de desilusões

de tudo sorrirás
dos tecidos das vaidades que debotaram
dos vestidos das meninas debutantes do clube farense
das promessas de amor eterno que duraram um beijo

pouco a pouco
todas as lágrimas serão estalactites dum tempo desaparecido
todas as ansiedades não mais que ondas moribundas nas costas do passado
e tu, converte-ás em triste testemunha de ti próprio e da tua circunstância breve
face a face à estátua magnífica do futuro

sexta-feira, 16 de julho de 2010

sinto falta de abraços longos e apertados
de camaradas novos que me prometam mundos
e não fundos

não quero viver agora
mas depois de amanhã
quando um homem de bolsos vazios
valer mais que um de bolsos cheios

quero morrer por ti
por uma causa justa
e quem viveu assim
não existiu em vão.
sou um indisciplinado por natureza
nunca serei ninguém de jeito e não me importa
porque a vida é sempre muito maior
e é tolice pensarmos ser grandes
- nem o peixe-imperador, coitado, acaba sempre de olhos esbugalhados no grelhador

se me levanto a meio da noite
e deixo a mulher que amo só abraçada ao travesseiro
não é para provar a minha existência,
garantir a minha salvação ou pior, a eternidade

não

o que procuro, viajante por veredas solitárias
enquanto quase todos dormem tranquilos
é essa essência
ascese poética
porque não encontrou ermida sua para se acolher.

quem me dera ser analfabeto como meu primo aniceto
não deixar entrar tantos fantasmas no meu pobre intelecto
pernoitar ao relento por montes e vales
e como uma serpente amar sem pecado
ter sempre aquela alegria de menino
trincar romãs e figos nas pernadas das árvores
fazer figas à morte e ao destino
atirar longe todas as amarguras
na fisga que um dia perdi
quando lavei a minha cara suja
para a missa que nunca quis.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Não tenho paciência para diários e memórias
mas tive um fim-de-semana memorável em Tânger
repleto de raparigas ardentes e bonitas

quem diria que o paraíso seria tão próximo?
hoje apetece-me morrer de amor por ti
e nada mais dizer
porque tudo o que disser
soa-me a cada-falso

segunda-feira, 7 de junho de 2010

esperei por ela toda a noite
e claro não veio
mas na claridade da madrugada
vislumbrei outra aurora
onde inesperada aparecera magnífica
na maré-cheia inicial desse amor
agora tudo se dissipara no horizonte da memória
e eu limitava-me a marcar a sua falta
num ponto final.
Posso deixar-te nua no sofá despida de amor
e pôr-me a compor um tango antigo e fora-de-moda
eu sou assim Evita
um fato amarrotado pelas unhas da tua revolta
um cabrão que te fode e deixa
um macho latrino e acabrunhado
perante esse pecado maldito e tremendo
de nos amarmos demais
nas noites demoníacas que rasgamos corações
e até deus foge de pavor
desse fogo-fátuo
que pensa ser só sexo
na sua omnisciência
e é todo amor.
não poemo
não quero poemar
não brinco com as palavras
não quero brincar

mas há palavras armadas em senhoras muito sérias
e outras muito senhoras do seu nariz
e ainda muitas outras muito senhoras finas de mau porte

e há que desmascará-las
violá-las por amor à arte
na violência da vida
no seu deboche de mau-gosto
e da língua demasiado comprida de muitos
nesta casa de putas deprimentes
sans glamour sans amour

declamar amor
e deixar o meu telemóvel esquecido no teu travesseiro

domingo, 6 de junho de 2010

Apartado da vida com vista-mar e ninfa para amar


Uma gaja para amar - hoje bateu-me esta frase ao sabor da ondas de algas magrebinas que morrem nesta baía de suicidas adiados sine die. Não sou desses de lamúrias caniches por senhoras predadoras de sexo, fortunas e famas várias, nem por damas de camélias, belas, insensíveis e inatingíveis ou intangíveis.
Deixe-mo-nos de tretas: desejo uma gaja para amar. E que é isso? alguém disponível para um autêntico curso de guerrilha, tipo dormir ao relento em montes de ninguém ou sorver rios até à nascente. Agora vou ver tv, logo continuo a moldar uma das peças do puzzle desta vida, aliás sem jeito. Não se pode viver sempre a deglutir saliva incessantemente.