terça-feira, 10 de agosto de 2010

PROMESSA AMAR

tenho um amor incontido por ti
e não te posso tocar
uma chama secreta
um sonho íntimo

queria tanto contar os teus cabelos
nas noites de insónia sem ondas nem luar
venerar-te naquela capela visigótica
que dizem ser da Senhora da Rocha
proa calcária e vela sobre o mar

um dia ao entardecer
no túmulo dos nossos desejos
hei-de pegar-te pela mão
e casar este corpo católico cristão
com o teu muçulmano
no desespero amável dos deuses.
aguardo noite fora
que me digas alguma coisa
alguma coisa de insensato
para eu fazer alguma coisa por ti
como abrir a minha combinação
sem estar nada combinado
ao acto adiado tanto tempo
na censura moral desse título de propriedade
que se titula casamento
e proíbe todo e qualquer adereço
a mínima lingerie
a uma mulher dita decente

mas hoje eu vou ser a puta mais reles de deus
vou esfregar-me no teu pénis preto
deixá-lo entrar em todos os meus templos proibidos
escancarar todas as minhas portas fechadas
ganir como cadela ciosa de cio
morder teu pescoço leonina
verter meu fel
minha raiva uterina
no derrame cerebral do teu leite

porque hoje vou ser
duma vez por todas
MULHER

e deixar na esquina a puta biodegradável que fui.
beijar-te e morrer
e dizer-te
que o teu amor
foi o melhor
que me aconteceu

eu que viera do lixo
do bafo alcoólico de minha mãe
filho da rua, da cola e de ninguém

eu que não brinquei
mas vi outros brincarem
e fugia deles como um rato

eu que não tinha roupa decente
para ir à escola
como toda a gente

beijar-te e morrer agora
dum tiro policial e certeiro
foi o melhor que me aconteceu
em toda a minha vida de prisioneiro
nas avenidas onde se vende sexo
e o amor fica guardado para quem não tem dinheiro
perco todos os navios
e sou perito em nostalgias de fibra
deixo enferrujar todos os bídons vazios
e só ando em ruas sem ninguém
abraço estátuas desgostosas e solitárias
e dou grandes passeios aos domingos
pondo flores nas campas mais abandonadas

não tenho idoneidade sequer para testemunhar que vivo
até acredito piamente que não existo
mas pelo andar tão palhaço solitário e triste
há-de pelo menos ficar na pintura do meu velho carro para abate
um verso feito risco
à Paula Raposo

excepcionalmente, porquanto não é aqui saleta para agradecimentos, o envio do seu livro que logo li e tardiamente agora agradeço pública e sentidamente
ainda guardo o lenço de sangue virgem de ti:
hei-de levá-lo no vento do meu último sôpro sobre a terra;
e ninguém naquele cemitério de gente indiferente,
saberá quanto se pode amar tanto a ausência
e passar melhor na passadeira do passado,
que na sombra em fuga do presente.
em homenagem sentida ao menino vítima de incêndio

Quero morrer por ti
pela vida que não tiveste
pela promessa sagrada
que não se cumpriu
quero morrer por ti
porque me apetece morrer por amor
e não confessá-lo a ninguém
mas anunciá-lo no meu querido céu ateu.

(em boa verdade devia guardar estes sentimentos para mim - mas poesia obriga)

Esta coisa séria da escrita e da vida que não se leva a sério como convém. Acabei de saber duma criança consumida pelo fogo num palheiro e pedi responsabilidades a esse deuzinho tão bondoso e interveniente: informaram-me, em nota oficiosa do arcebispado de braga, onde me encontro de férias precárias, que a negligência é humana e deus não o é pela sua própria natureza - além de que tem imunidade diplomática e estatuto internacional de inimputabilidade. Assim, recolhi aos meus aposentos, no mais pesaroso silêncio dos deuses. Caíam cinzas no écran do meu portátil, lavravam incêndios de dor por toda a parte e dei por mim numa prece breve de revolta, que só os ateus sabem rezar pelos outros.

terça-feira, 20 de julho de 2010

DESAGOSTO

trago um desgosto em mim desde menino
um não sei quê de angústia
talvez porque foi quase sempre meu destino
morar nas amuradas do mar

brinquei na areia
saltei das rochas
fui enrolado pelas ondas
e quantas vezes dei á costa na ilha dos tesouros

hoje sei
quando abro esse baú da infância
quantos tesouros lá deixei:
as gritarias, os pontapés na bola, os bichos-da-seda

hoje sei
aquela amargura que trago
só pode ser
da recusa de crescer
e persistir brincar ainda na praia vazia da minha meninice.






só quem viveu muito
pôde morrer tantas vezes e sobreviver
fuzilado pelos olhos de quem nos amou e partiu
e só volta de vez em quando no prodigío breve
dos lençóis de neblina dos sonhos

há sempre alguém que nos comove a cada esquina da vida
e dessa beleza sentida
só por ela valeu bem a pena nascer da dor
em amor convertida

(sugestionado pelas fotos e versos do T. da Luz)

sábado, 17 de julho de 2010

preia-mar

no bulício duma praia maré-cheia de verão
onde ondas de meninos se atiram á água
e as meninas tecem caracóis e intrigas
há um menino de risca ao lado
que não sorri
e risca riscos ariscos à solidão
nuns gritos estridentes de gaivota sem asas

(e o meu filho joão não me deixa terminar o poema)
PATHEOS

serás poeta sem querer
se um dia te deixares estar sem esperares nada nem ninguém
no desejo insensato de esquecer o mundo
tecendo rendas de bilros de silêncios
bordando novas palavras para sentimentos ocultos
num pateo sombrio de desilusões

de tudo sorrirás
dos tecidos das vaidades que debotaram
dos vestidos das meninas debutantes do clube farense
das promessas de amor eterno que duraram um beijo

pouco a pouco
todas as lágrimas serão estalactites dum tempo desaparecido
todas as ansiedades não mais que ondas moribundas nas costas do passado
e tu, converte-ás em triste testemunha de ti próprio e da tua circunstância breve
face a face à estátua magnífica do futuro

sexta-feira, 16 de julho de 2010

sinto falta de abraços longos e apertados
de camaradas novos que me prometam mundos
e não fundos

não quero viver agora
mas depois de amanhã
quando um homem de bolsos vazios
valer mais que um de bolsos cheios

quero morrer por ti
por uma causa justa
e quem viveu assim
não existiu em vão.
sou um indisciplinado por natureza
nunca serei ninguém de jeito e não me importa
porque a vida é sempre muito maior
e é tolice pensarmos ser grandes
- nem o peixe-imperador, coitado, acaba sempre de olhos esbugalhados no grelhador

se me levanto a meio da noite
e deixo a mulher que amo só abraçada ao travesseiro
não é para provar a minha existência,
garantir a minha salvação ou pior, a eternidade

não

o que procuro, viajante por veredas solitárias
enquanto quase todos dormem tranquilos
é essa essência
ascese poética
porque não encontrou ermida sua para se acolher.

quem me dera ser analfabeto como meu primo aniceto
não deixar entrar tantos fantasmas no meu pobre intelecto
pernoitar ao relento por montes e vales
e como uma serpente amar sem pecado
ter sempre aquela alegria de menino
trincar romãs e figos nas pernadas das árvores
fazer figas à morte e ao destino
atirar longe todas as amarguras
na fisga que um dia perdi
quando lavei a minha cara suja
para a missa que nunca quis.